Quando criança, lembro de calcular a idade com o passar dos anos. Havia a tranquilidade de quem observa algo a uma distância segura. Em 1998 teria 16, em 2042, 60, e assim por diante. O tempo ainda passava com a morosidade comum à infância e não poderia jamais falar de coisas como se tivessem ocorrido ontem. Talvez seja o período da vida onde guardamos as lembranças mais vivas. De resto, porém, os dias parecem passar como se dentro de um trem, guardando vagas lembranças do que se vê pela janela, descendo em uma ou outra estação.
Em uma estação de trem em Viena que descem, de fato, Jesse e Celine, os personagens principais desta pequena obra-prima de Richard Linklater. A proposta é passarem uma noite juntos se conhecendo e, talvez no processo, não serem somente memórias vagas um para o outro, um alguém que se arrependeriam não terem conhecido melhor. Os dois caminham pela cidade por lugares que se tornam interessantes por suas impressões, por sua passagem. Ao final do filme, as imagens vazias e nostálgicas dos mesmos locais, nos mostram que ao contrário dos personagens que se mesclavam às imagens de fundo em uma pintura comentada por Celine, estes lugares ganhavam vida justamente pela presença destacada do casal. Afinal, Jesse e Celine, mesmo estando de passagem, estão interessados em transpor a barreira que há em conhecer o outro, ultrapassarem um interesse físico somente e, de fato, se apaixonarem. E não há como não se apaixonar pelos dois personagens.
Com diálogos muito bem escritos e um grande carisma dos atores principais (Ethan Hawke e Julie Delpy), nunca perdemos o interesse em conhecê-los. Suas opiniões são relevantes, suas dúvidas comuns no começo de uma vida adulta. Somos levados, então, a uma noite em que o tempo passará mais devagar com tantos acontecimentos diferentes, tantos diálogos, e o começo e fim de um amor intenso. Não à toa, os personagens repetem algumas vezes a impressão de estarem sonhando. É uma noite, com seu caráter onírico por natureza, onde não só tomam uma atitude incomum (descer de um trem com um estranho), mas onde todo o tempo parece se condensar, e anunciar seu fim a todo instante.
Ainda, o filme se desenvolve de um modo em que soa mais que natural, ou mesmo inevitável, a intimidade desenvolvida pelo casal. E, assim como não querem que a noite termine, temos um gosto amargo ao abandoná-los no final, desejando reencontrá-los ali seis meses depois. Os próprios personagens parecem ter infelizmente acordado de um sonho bom, ao seguirem suas vidas de volta ao tempo normal, olhando pela janela, voltando a ver a paisagem passar.
P.S. Ao final do filme temos a informação que tudo se passou no dia 16 de Junho, curiosamente, o conhecido Bloomsday, homenagem ao longo dia narrado na obra “Ulysses” de James Joyce e, também, dia em que o autor saiu pela primeira vez com sua companheira de toda a vida.

Primeiro comentário! Muito rico e interessante o texto, com muito potencial nos faz pensar sobre o tempo algo que esquecemos no dia a dia.
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