
A quem ainda não viu o filme e gostaria de ver, contém Spoilers .
Considero particularmente Lars Von Trier como um dos melhores cineastas em atividade, proporcionando, no mínimo, uma visita interessante ao cinema. O cineasta nunca deixa de explorar seu pessimismo quanto à natureza humana, onde suas protagonistas sofrem severos tipos de humilhação (Ondas do Destino, Dançando no Escuro) normalmente causados por aqueles em quem depositam sua confiança, chegando até mesmo a revelar suas piores facetas (Dogville, ainda que neste caso nos trazendo satisfação). Uma vez mais, o diretor/roteirista toma uma personagem feminina para contar uma história extremamente perturbadora.
Em Anticristo, Von Trier narra a história de um casal devastado pela perda de um filho (e apesar de não tê-los, creio ser o pior tipo de dor que alguém possa experienciar), morto ao cair de uma janela enquanto o casal tem uma relação sexual. O filme é dividido em quatro capítulos (outra constante na filmografia do diretor), precedido por um prólogo e seguido por um epílogo. No decorrer do filme descobrimos que o marido é um terapeuta e se dispõe a tratar de sua esposa, que não tem apresentado melhora em seu estado de luto com o tratamento até então recebido. Este descobre que sua esposa desenvolveu um medo que parece ter seu centro em Éden, um lugar em meio à floresta onde ambos possuem uma cabana. O restante do filme se desenvolve, então, neste lugar onde o marido tentará encontrar a causa do medo de sua mulher, ao passo que vivencia fenômenos estranhos.
Importante dizer que nenhum dos protagonistas é mencionado por seus nomes próprios, nos apresentados apenas como Ele e Ela, o que nos leva a vê-los de certo modo como representações universais tanto do homem como da mulher. Desta forma, não temo dizer que são representações de todo o senso comum considerado masculino (tal como a razão ou racionalidade) e feminino (o instinto, por exemplo). Não se deve, entretanto, perceber tais personagens como figuras unidimensionais, ambos apresentam (talvez mais a Mulher nesta questão) uma dicotomia constante entre razão e instinto: Ele tentando trazê-la a uma racionalização mediante a psicanálise, e Ela utilizando do sexo como forma de dominá-lo, gerando assim uma tensão constante entre estes dois aspectos. Por sinal, creio que tais dicotomias estão presentes em todo o filme, gerando uma tensão cada vez maior que move a história (Caos X Ordem; Natureza X Civilidade; Instinto X Razão; Mulher X Homem; Mal X Bem; Diabo X Deus).

Caso não tenha faltado nas aulas de catecismo ou escola dominical, creio que vá se lembrar da história bíblica da criação e queda do homem (narradas nos três primeiros capítulos do livro de Gênesis, na Bíblia). Deus cria Adão à sua imagem e semelhança, e atribui ao mesmo a responsabilidade de cultivar e guardar o jardim do Éden, assim como nomear todos os animais (colocando-o desta forma como uma criação superior às outras, e incumbindo-o de trazer e manter a ordem daquela criação). Em seguida, ao ver o homem sozinho, e que isso não era bom, Deus cria Eva de uma de suas costelas (trazendo a ideia de uma contraparte que completaria este homem, e que também estaria sujeita ao mesmo, visto que foi criada de uma de suas partes). A mulher, seduzida pela serpente, come o fruto proibido, dando-o também a Adão, e passam a ter conhecimento do bem e do mal. Neste momento, Deus pune suas criaturas, avisando que ambos agora morrerão por sua desobediência, o homem terá que se esforçar para tirar o sustento da terra, e a mulher sofrerá dores de parto e estará sempre sujeita ao governo do homem.
Se considerarmos a personagem de Charlotte Gainsbourg como um símbolo de Eva (lembrando que o casal se encontra em Éden), vemos que Ela parece se recusar aos termos da punição em Gênesis. Primeiramente, à sua condição de maternidade e, em seguida, ao papel de sujeição à figura masculina (em algumas cenas Ela se encontra em cima do homem durante a relação sexual numa situação clara de dominação).

A princípio, é curioso observar que o filme se inicia exatamente com o oposto da história da Natividade: a morte de uma criança. Assim, temos aqui uma espécie de Anti-Natal (a belíssima cena do prólogo se passa no inverno), e na personagem uma Anti-Maria, uma mulher que sofre ou se insatisfaz com sua condição de mãe (demonstrando isso em seu hábito de torturar o filho, homem, calçando seus sapatos ao contrário) e que, finalmente, abdica desta condição ao permitir a morte da criança. Algo refletido na natureza ao vermos um cervo que caminha naturalmente com metade de um feto abortado ainda preso a si.
Além disso, em segunda instância, A Mulher se torna o Anti-Adão e, por que não, o Anti-Cristo (Cristo também é chamado na Bíblia de segundo Adão, e Filho de Adão), visto que rejeita o papel atribuído à mulher pela cultura judaico-cristã, base da civilização ocidental. É uma negação da crença criada no judaísmo, estabelecida pelo cristianismo e utilizada por milênios na diminuição do papel feminino, e na atribuição da culpa maior à mulher na queda. Durante o filme temos a informação de que sua personagem realizava estudos sobre a agressão contra a mulher (especificamente seu marido encontra textos sobre a caça às bruxas, que nada eram além de sacerdotisas e adoradoras da natureza), o que pode nos levar a pensar de onde sua personagem tirou seus conflitos e sua força para se libertar destas convenções.

Desta forma, todos os elementos do filme que possam ser considerados Anti-Civilidade, Anti-Ordem, Anti-Deus se identificam naturalmente com o aspecto feminino: a Natureza, o Diabo, o Caos. Em resumo, o que perturba a mulher desde o início é esta natureza com a qual ela se identifica, e a qual o personagem de Willem Dafoe descobre progressivamente. A mulher, que no princípio do filme se une à natureza e afirma que “A Natureza é a Igreja de Satanás”, é de fato a portadora do Caos desta Ordem estabelecida. No final, ela tem a difícil tarefa de se livrar de todo o papel social que lhe é atribuído, o que não deixa de ser um processo extremamente doloroso (afinal, ela sofre com a perda do filho) que termina em sua cena de auto-castração. Sua necessidade final da contraparte é finalmente limada.
Ainda, no processo, eliminar e/ou subjugar o homem (aqui a violência empregada contra o homem ecoa os milênios de abuso contra a mulher) nunca deixa de ser uma opção, e a mulher tenta eliminar e subjugá-lo brutalmente de diversas formas, até sua morte, no fim, sujeita a um último ato de agressividade e subjugação masculina. Neste instante, temos a presença dos três visitantes (os animais vistos durante o filme), que me fazem lembrar também da presença dos três magos no nascimento de Cristo. O homem, no final, está só, remetendo à origem da Criação em que a mulher ainda não havia sido formada. Estariam então as mulheres que passam por Ele no epílogo indo se juntar a Ela?

Apesar de a princípio ter visto o filme como profundamente misógino, não consigo mais enxergá-lo desta forma, mas como uma grande alegoria. Seria o caso de Von Trier crer realmente que a essência feminina é, de fato, o Caos? Creio que não. Talvez uma declaração, bem do seu jeito, à completa auto-libertação feminina. Não duvido que aos cristãos o filme provavelmente pareça ofensivo, ou alguns nutram alguns sentimentos de que as mulheres devam cumprir seu destino bíblico.
Tratando de outros aspectos, o filme cumpre fielmente as regras do gênero (terror/ ou mesmo terror na cabana), mantendo um clima constante de tensão e claustrofobia (as imagens na floresta sempre surgem tristes, ameaçadoras e como se algo estivesse agindo por trás de tudo). Além do mais, Charlotte Gainsbourg entrega sua personagem com um vigor poucas vezes visto em tela. Aos que não se ofendem com imagens gráficas, vale a pena conferir.
Recomendo também a leitura da crítica de meu professor de linguagem e crítica cinematográfica, Pablo Villaça (http://cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_critica=7510&id_filme=6251&aba=critica), na qual aborda aspectos de psicanálise, dos quais confesso não ser profundo conhecedor.
P.S. Assisti ao filme no Cine Bombril e, não bastando o clima tenso, um pequeno morcego ocasionalmente dava o ar de sua graça passando bem rente às poltronas, tornando tudo ainda mais perturbador. : /