quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Feliz 2010!


Toda minha vida procuro pequenos ou grandes momentos de alumbramento. Como se quando os encontro soubesse algo de verdade, ou da verdade. O olhar fixo de duas pessoas no momento em que percebem que se amam, seja qual for o tipo de amor, o rosto da minha vó quando lhe dei um álbum de fotografias com artistas clássicos de Hollywood (meu vô havia rasgado e queimado um álbum que ela tinha há muito tempo atrás), meu cachorro virando a barriga pra cima, o deserto da Patagônia visto da janela do ônibus, pessoas dançando com lenços em Buenos Aires, o pôr-do-sol na praia de Santos, a penumbra do crepúsculo, a cama na neve em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, a Dolores O’Riordan quando chega no refrão de Ecstasy (“Ecstasy misunderstood, will you dance with me, as if I should...), todo o filme Apenas Uma Vez (Once). Alegria e tristeza e estranhamento e conforto...

Em 2010, e por toda a vida, alumbre-se!

Feliz Ano Novo!


terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Fantástico Sr. Raposo (Fantastic Mr. Fox – 2009)


O que faz de um homem um homem?

Ou melhor, o que faz de uma raposa uma raposa? É o que tenta descobrir o Sr. Raposo, ao receber a notícia que a Sra. Raposo se encontra grávida e que, portanto, terá que se ajustar a uma vida civilizada. Curioso por natureza (a ponto de puxar uma corda mesmo suspeitando fortemente ser uma armadilha) e ladrão de galinhas profissional, após 12 anos de raposa (2 anos humanos) o Sr. Raposo parece ter suprimido sua essência. Não à toa que ele decide comprar uma árvore próxima aos três fazendeiros mais cruéis da região e arquitetar planos elaborados para voltar a fazer o que sabe tão bem, roubar.

Com a ajuda de um gambá, que às vezes parece sofrer de narcolepsia, os furtos do Sr. Raposo logo perturbam a paz de todos os animais, visto que os fazendeiros não entregam seus produtos tranquilamente e iniciam uma grande caça à raposa (os vilões, caricatos como em contos infantis, se mostram bem ameaçadores, até mesmo pela bizarra gravata que um destes passa a vestir). Neste processo de sobrevivência, os animais civilizados encontrarão aquilo que os torna únicos e, também, sua essência selvagem (o que é respeitado na figura do lobo, que vive em pleno contato com sua natureza). Ainda assim, interessante ver que mesmo apesar da humanização dos personagens (pelas roupas, fala e mesmo profissões), eles não deixam de ser animais, algo demonstrado no curioso modo em que o Sr. Raposo devora um café da manhã, por exemplo.

Da mesma forma, Ash (o filho do Sr. Raposo), busca encontrar seu lugar naquela sociedade. Sempre vestindo uma capa de super-herói, o adolescente insiste em querer provar seu valor como atleta e como alguém especial, notando a clara decepção do pai e, também, intimidado pelo primo Kristofferson (praticante de meditação e perfeito em praticamente tudo o que faz). Já a Sra. Raposo, aparentemente feliz com sua vida estável, apesar de seus olhares de reprovação, demonstra entender e se fascinar com este lado selvagem do marido.

O Fantástico Sr. Raposo, que teve uma passagem infelizmente curta pelos cinemas de São Paulo, é uma fábula de auto-aceitação contada no estilo estranho e totalmente “cool” de Wes Anderson (Os Excêntricos Tennenbaums, A Vida Marinha de Steve Zissou). O diretor aposta na animação tradicional em stop-motion, utilizando poucos efeitos especiais, o que proporciona um clima artesanal cativante. Não somente isso, mas os próprios figurinos remetem à década de 50, época frequente em histórias onde personagens sentem profunda angústia em se conformar com a aparente felicidade e mediocridade do American Way of Life imposto.

Contando com ótimas gags visuais e ação, que se equilibram bem com os momentos de diálogos entre os personagens (que podem entediar alguns espectadores abaixo dos sete anos), o filme infelizmente só poderá ser curtido por muitos em DVD. As distribuidoras poderiam ter acreditado mais no potencial do filme, investindo tanto em mais publicidade quanto em cópias dubladas, creio que não se arrependeriam. Baseado em livro de Roald Dahl, com vozes de George Clooney, Meryl Streep, Bill Murray, Jason Schwartzman, Willem Dafoe e Michael Gambon.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Poema-Retrato 2


Cabelos desgrenhados,
Banguela, bêbado
Senta ao meu lado.
Irritado, logo lhe respondo à primeira palavra:
"Je ne parle pas Portugais"
Mas, de maneira impecável,
Começa, então, infindável
A recitar Baudelaire.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Avatar (2009)


Em Avatar (2009), filme dirigido e escrito por James Cameron, assistimos a mais uma versão da velha história “opressão-herói-libertação”, e mesmo “garoto conhece garota – garota odeia garoto – ambos se apaixonam apesar de virem de contextos diferentes”. E por mais que estejamos revendo ou escutando novamente uma história, ou uma versão da mesma, quando bem contada, nunca deixamos de nos envolver (confesso que toda vez que assisto Menina de Ouro tenho vontade de tirar aquele maldito banquinho). E James Cameron (mais conhecido pelo oscarizado Titanic e pelos dois primeiros Exterminador do Futuro) pode ser considerado um mestre em contar histórias com muita ação e fantásticos efeitos visuais.

Seguindo um hiato de 12 anos desde sua última grande produção, Cameron nos apresenta pelos olhos de seu protagonista, Jake Sully (Sam Worthington, que roubou a cena no último filme da franquia Exterminador do Futuro), ex-fuzileiro naval paraplégico, uma missão ao planeta Pandora, organizada por uma empresa de mineração. O planeta é lar de uma vasta biodiversidade e, também, da raça humanóide Na’Vi. O protagonista logo assume a função de se aproximar deste povo (assumindo o corpo de um avatar que se assemelha aos habitantes do planeta) e convencê-los a deixarem seu lar, situado sobre uma enorme quantidade de um valioso metal.

Pelos olhos de Jake, que se liberta de suas limitações físicas no corpo do avatar (em uma bela cena em que demonstra a alegria de poder utilizar as pernas novamente), que exploraremos o mundo criado por Cameron em detalhes riquíssimos, assim como conhecer e se apaixonar, como o personagem, pelo povo Na’Vi e sua cultura. Estes demonstram grande harmonia com a natureza de seu planeta, mesmo pela capacidade física de se conectar tanto a outros animais, como à própria essência vital do planeta, a qual deificam e chamam de Eywa, em uma clara, porém não menos eficiente, mensagem ecológica. Desta forma, seus símbolos e locais sagrados, se tornam também sagrados a nós, e não deixa de ser desesperador ver a destruição de algumas árvores logo após uma cena tocante, em que percebemos o significado do lugar para aquela civilização.

Os Na’Vi que, a princípio, geram pelo menos o estranhamento da interação entre personagens digitais e personagens reais (ainda não consigo ficar plenamente satisfeito com a aparente textura borrachenta da pele), ganham verossimilhança pela performance em motion capture que mantém uma grande fluidez de movimentos, e capta, até mesmo, mudanças sutis de expressões faciais (creio que muito em breve será impossível distinguir um ator real de um personagem digitalmente criado). Quanto aos ambientes, estes sempre parecem reais, sendo que tomei como lugar favorito as belíssimas montanhas flutuantes.

Assumindo o papel de vilão da produção, temos o Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), que tenta cumprir suas ordens profissionais com uma obstinação de fazer inveja ao T-1000 de Exterminador do Futuro 2 (o que por vezes soa irritante, porém entendo a crítica à arrogância e ao militarismo cego bem americanos).

Um festival aos olhos para ser curtido em um cinema com boa projeção 3-D e tela imensa. Com Sigourney Weaver, Zoe Saldana, Michelle Rodriguez e Giovanni Ribisi.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Poema-Retrato


A Simetria

Vi, no ônibus, um casal
Lentes embaçadas
Sorriam, se beijavam
Era feio.
Ela: sardenta, sem-sal;
Ele: zarolho;
Eu: cínico, cético, só

Nota: Durante estes meses de férias publicarei os posts duas vezes por semana, às terças e sextas. Para esta terça comentários sobre Avatar, não tive tempo de escrever para hoje, pois fui para a ceia de Natal antecipada em Santos. Fica então um poema que escrevi faz um tempinho. Beijos e abraços. Obrigado pela visita!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Anticristo (Antichrist - 2009)

A quem ainda não viu o filme e gostaria de ver, contém Spoilers .

Considero particularmente Lars Von Trier como um dos melhores cineastas em atividade, proporcionando, no mínimo, uma visita interessante ao cinema. O cineasta nunca deixa de explorar seu pessimismo quanto à natureza humana, onde suas protagonistas sofrem severos tipos de humilhação (Ondas do Destino, Dançando no Escuro) normalmente causados por aqueles em quem depositam sua confiança, chegando até mesmo a revelar suas piores facetas (Dogville, ainda que neste caso nos trazendo satisfação). Uma vez mais, o diretor/roteirista toma uma personagem feminina para contar uma história extremamente perturbadora.

Em Anticristo, Von Trier narra a história de um casal devastado pela perda de um filho (e apesar de não tê-los, creio ser o pior tipo de dor que alguém possa experienciar), morto ao cair de uma janela enquanto o casal tem uma relação sexual. O filme é dividido em quatro capítulos (outra constante na filmografia do diretor), precedido por um prólogo e seguido por um epílogo. No decorrer do filme descobrimos que o marido é um terapeuta e se dispõe a tratar de sua esposa, que não tem apresentado melhora em seu estado de luto com o tratamento até então recebido. Este descobre que sua esposa desenvolveu um medo que parece ter seu centro em Éden, um lugar em meio à floresta onde ambos possuem uma cabana. O restante do filme se desenvolve, então, neste lugar onde o marido tentará encontrar a causa do medo de sua mulher, ao passo que vivencia fenômenos estranhos.

Importante dizer que nenhum dos protagonistas é mencionado por seus nomes próprios, nos apresentados apenas como Ele e Ela, o que nos leva a vê-los de certo modo como representações universais tanto do homem como da mulher. Desta forma, não temo dizer que são representações de todo o senso comum considerado masculino (tal como a razão ou racionalidade) e feminino (o instinto, por exemplo). Não se deve, entretanto, perceber tais personagens como figuras unidimensionais, ambos apresentam (talvez mais a Mulher nesta questão) uma dicotomia constante entre razão e instinto: Ele tentando trazê-la a uma racionalização mediante a psicanálise, e Ela utilizando do sexo como forma de dominá-lo, gerando assim uma tensão constante entre estes dois aspectos. Por sinal, creio que tais dicotomias estão presentes em todo o filme, gerando uma tensão cada vez maior que move a história (Caos X Ordem; Natureza X Civilidade; Instinto X Razão; Mulher X Homem; Mal X Bem; Diabo X Deus).

Caso não tenha faltado nas aulas de catecismo ou escola dominical, creio que vá se lembrar da história bíblica da criação e queda do homem (narradas nos três primeiros capítulos do livro de Gênesis, na Bíblia). Deus cria Adão à sua imagem e semelhança, e atribui ao mesmo a responsabilidade de cultivar e guardar o jardim do Éden, assim como nomear todos os animais (colocando-o desta forma como uma criação superior às outras, e incumbindo-o de trazer e manter a ordem daquela criação). Em seguida, ao ver o homem sozinho, e que isso não era bom, Deus cria Eva de uma de suas costelas (trazendo a ideia de uma contraparte que completaria este homem, e que também estaria sujeita ao mesmo, visto que foi criada de uma de suas partes). A mulher, seduzida pela serpente, come o fruto proibido, dando-o também a Adão, e passam a ter conhecimento do bem e do mal. Neste momento, Deus pune suas criaturas, avisando que ambos agora morrerão por sua desobediência, o homem terá que se esforçar para tirar o sustento da terra, e a mulher sofrerá dores de parto e estará sempre sujeita ao governo do homem.

Se considerarmos a personagem de Charlotte Gainsbourg como um símbolo de Eva (lembrando que o casal se encontra em Éden), vemos que Ela parece se recusar aos termos da punição em Gênesis. Primeiramente, à sua condição de maternidade e, em seguida, ao papel de sujeição à figura masculina (em algumas cenas Ela se encontra em cima do homem durante a relação sexual numa situação clara de dominação).

A princípio, é curioso observar que o filme se inicia exatamente com o oposto da história da Natividade: a morte de uma criança. Assim, temos aqui uma espécie de Anti-Natal (a belíssima cena do prólogo se passa no inverno), e na personagem uma Anti-Maria, uma mulher que sofre ou se insatisfaz com sua condição de mãe (demonstrando isso em seu hábito de torturar o filho, homem, calçando seus sapatos ao contrário) e que, finalmente, abdica desta condição ao permitir a morte da criança. Algo refletido na natureza ao vermos um cervo que caminha naturalmente com metade de um feto abortado ainda preso a si.

Além disso, em segunda instância, A Mulher se torna o Anti-Adão e, por que não, o Anti-Cristo (Cristo também é chamado na Bíblia de segundo Adão, e Filho de Adão), visto que rejeita o papel atribuído à mulher pela cultura judaico-cristã, base da civilização ocidental. É uma negação da crença criada no judaísmo, estabelecida pelo cristianismo e utilizada por milênios na diminuição do papel feminino, e na atribuição da culpa maior à mulher na queda. Durante o filme temos a informação de que sua personagem realizava estudos sobre a agressão contra a mulher (especificamente seu marido encontra textos sobre a caça às bruxas, que nada eram além de sacerdotisas e adoradoras da natureza), o que pode nos levar a pensar de onde sua personagem tirou seus conflitos e sua força para se libertar destas convenções.

Desta forma, todos os elementos do filme que possam ser considerados Anti-Civilidade, Anti-Ordem, Anti-Deus se identificam naturalmente com o aspecto feminino: a Natureza, o Diabo, o Caos. Em resumo, o que perturba a mulher desde o início é esta natureza com a qual ela se identifica, e a qual o personagem de Willem Dafoe descobre progressivamente. A mulher, que no princípio do filme se une à natureza e afirma que “A Natureza é a Igreja de Satanás”, é de fato a portadora do Caos desta Ordem estabelecida. No final, ela tem a difícil tarefa de se livrar de todo o papel social que lhe é atribuído, o que não deixa de ser um processo extremamente doloroso (afinal, ela sofre com a perda do filho) que termina em sua cena de auto-castração. Sua necessidade final da contraparte é finalmente limada.

Ainda, no processo, eliminar e/ou subjugar o homem (aqui a violência empregada contra o homem ecoa os milênios de abuso contra a mulher) nunca deixa de ser uma opção, e a mulher tenta eliminar e subjugá-lo brutalmente de diversas formas, até sua morte, no fim, sujeita a um último ato de agressividade e subjugação masculina. Neste instante, temos a presença dos três visitantes (os animais vistos durante o filme), que me fazem lembrar também da presença dos três magos no nascimento de Cristo. O homem, no final, está só, remetendo à origem da Criação em que a mulher ainda não havia sido formada. Estariam então as mulheres que passam por Ele no epílogo indo se juntar a Ela?

Apesar de a princípio ter visto o filme como profundamente misógino, não consigo mais enxergá-lo desta forma, mas como uma grande alegoria. Seria o caso de Von Trier crer realmente que a essência feminina é, de fato, o Caos? Creio que não. Talvez uma declaração, bem do seu jeito, à completa auto-libertação feminina. Não duvido que aos cristãos o filme provavelmente pareça ofensivo, ou alguns nutram alguns sentimentos de que as mulheres devam cumprir seu destino bíblico.

Tratando de outros aspectos, o filme cumpre fielmente as regras do gênero (terror/ ou mesmo terror na cabana), mantendo um clima constante de tensão e claustrofobia (as imagens na floresta sempre surgem tristes, ameaçadoras e como se algo estivesse agindo por trás de tudo). Além do mais, Charlotte Gainsbourg entrega sua personagem com um vigor poucas vezes visto em tela. Aos que não se ofendem com imagens gráficas, vale a pena conferir.

Recomendo também a leitura da crítica de meu professor de linguagem e crítica cinematográfica, Pablo Villaça (http://cinemaemcena.com.br/Ficha_filme.aspx?id_critica=7510&id_filme=6251&aba=critica), na qual aborda aspectos de psicanálise, dos quais confesso não ser profundo conhecedor.

P.S. Assisti ao filme no Cine Bombril e, não bastando o clima tenso, um pequeno morcego ocasionalmente dava o ar de sua graça passando bem rente às poltronas, tornando tudo ainda mais perturbador. : /

domingo, 6 de dezembro de 2009

Poeminha a Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho


São Longuinho, São Longuinho

Se eu encontrar a inocência perdida, o primeiro beijo, o frio na barriga, sussurros ao pé do ouvido, o amor retribuído, o calço da cama, os botões do pijama

Não dou três, nem cem pulinhos.

Passo a vida pulando, pulando...

domingo, 29 de novembro de 2009

Admirável Século Novo

2052. Séc. XXI. Torres douradas cobrem a terra e oceanos com centenas, talvez milhares de andares. Espaçoportos conduzem além dos limites imaginados. Marte, Titã, Vega... Clones e andróides caminham lado a lado.

Homens-macaco, criações e aberrações da criatividade humana. Novas roupas sintéticas, novos estilos, novas tendências, o velho ser humano.

De Súbito. Grande revolução. Cyborgs contra humanos. Humanos contra supermacacos. Cães contra gatos. Andróides contra máquinas de café. Guerra. Extermínio. Seres sobrepujados, controlados, interrompidos.

Herói.

Novos ideais. Fuga. Libertação. Morte dos vilões. Novo Éden. THE END.

Saio do cinema, pego meu fusca e volto pra casa.

domingo, 22 de novembro de 2009

Antes do Amanhecer (Before Sunrise) - 1995

Quando criança, lembro de calcular a idade com o passar dos anos. Havia a tranquilidade de quem observa algo a uma distância segura. Em 1998 teria 16, em 2042, 60, e assim por diante. O tempo ainda passava com a morosidade comum à infância e não poderia jamais falar de coisas como se tivessem ocorrido ontem. Talvez seja o período da vida onde guardamos as lembranças mais vivas. De resto, porém, os dias parecem passar como se dentro de um trem, guardando vagas lembranças do que se vê pela janela, descendo em uma ou outra estação.

Em uma estação de trem em Viena que descem, de fato, Jesse e Celine, os personagens principais desta pequena obra-prima de Richard Linklater. A proposta é passarem uma noite juntos se conhecendo e, talvez no processo, não serem somente memórias vagas um para o outro, um alguém que se arrependeriam não terem conhecido melhor. Os dois caminham pela cidade por lugares que se tornam interessantes por suas impressões, por sua passagem. Ao final do filme, as imagens vazias e nostálgicas dos mesmos locais, nos mostram que ao contrário dos personagens que se mesclavam às imagens de fundo em uma pintura comentada por Celine, estes lugares ganhavam vida justamente pela presença destacada do casal. Afinal, Jesse e Celine, mesmo estando de passagem, estão interessados em transpor a barreira que há em conhecer o outro, ultrapassarem um interesse físico somente e, de fato, se apaixonarem. E não há como não se apaixonar pelos dois personagens.

Com diálogos muito bem escritos e um grande carisma dos atores principais (Ethan Hawke e Julie Delpy), nunca perdemos o interesse em conhecê-los. Suas opiniões são relevantes, suas dúvidas comuns no começo de uma vida adulta. Somos levados, então, a uma noite em que o tempo passará mais devagar com tantos acontecimentos diferentes, tantos diálogos, e o começo e fim de um amor intenso. Não à toa, os personagens repetem algumas vezes a impressão de estarem sonhando. É uma noite, com seu caráter onírico por natureza, onde não só tomam uma atitude incomum (descer de um trem com um estranho), mas onde todo o tempo parece se condensar, e anunciar seu fim a todo instante.

Ainda, o filme se desenvolve de um modo em que soa mais que natural, ou mesmo inevitável, a intimidade desenvolvida pelo casal. E, assim como não querem que a noite termine, temos um gosto amargo ao abandoná-los no final, desejando reencontrá-los ali seis meses depois. Os próprios personagens parecem ter infelizmente acordado de um sonho bom, ao seguirem suas vidas de volta ao tempo normal, olhando pela janela, voltando a ver a paisagem passar.

P.S. Ao final do filme temos a informação que tudo se passou no dia 16 de Junho, curiosamente, o conhecido Bloomsday, homenagem ao longo dia narrado na obra “Ulysses” de James Joyce e, também, dia em que o autor saiu pela primeira vez com sua companheira de toda a vida.