O que faz de um homem um homem?
Ou melhor, o que faz de uma raposa uma raposa? É o que tenta descobrir o Sr. Raposo, ao receber a notícia que a Sra. Raposo se encontra grávida e que, portanto, terá que se ajustar a uma vida civilizada. Curioso por natureza (a ponto de puxar uma corda mesmo suspeitando fortemente ser uma armadilha) e ladrão de galinhas profissional, após 12 anos de raposa (2 anos humanos) o Sr. Raposo parece ter suprimido sua essência. Não à toa que ele decide comprar uma árvore próxima aos três fazendeiros mais cruéis da região e arquitetar planos elaborados para voltar a fazer o que sabe tão bem, roubar.
Com a ajuda de um gambá, que às vezes parece sofrer de narcolepsia, os furtos do Sr. Raposo logo perturbam a paz de todos os animais, visto que os fazendeiros não entregam seus produtos tranquilamente e iniciam uma grande caça à raposa (os vilões, caricatos como em contos infantis, se mostram bem ameaçadores, até mesmo pela bizarra gravata que um destes passa a vestir). Neste processo de sobrevivência, os animais civilizados encontrarão aquilo que os torna únicos e, também, sua essência selvagem (o que é respeitado na figura do lobo, que vive em pleno contato com sua natureza). Ainda assim, interessante ver que mesmo apesar da humanização dos personagens (pelas roupas, fala e mesmo profissões), eles não deixam de ser animais, algo demonstrado no curioso modo em que o Sr. Raposo devora um café da manhã, por exemplo.
Da mesma forma, Ash (o filho do Sr. Raposo), busca encontrar seu lugar naquela sociedade. Sempre vestindo uma capa de super-herói, o adolescente insiste em querer provar seu valor como atleta e como alguém especial, notando a clara decepção do pai e, também, intimidado pelo primo Kristofferson (praticante de meditação e perfeito em praticamente tudo o que faz). Já a Sra. Raposo, aparentemente feliz com sua vida estável, apesar de seus olhares de reprovação, demonstra entender e se fascinar com este lado selvagem do marido.
O Fantástico Sr. Raposo, que teve uma passagem infelizmente curta pelos cinemas de São Paulo, é uma fábula de auto-aceitação contada no estilo estranho e totalmente “cool” de Wes Anderson (Os Excêntricos Tennenbaums, A Vida Marinha de Steve Zissou). O diretor aposta na animação tradicional em stop-motion, utilizando poucos efeitos especiais, o que proporciona um clima artesanal cativante. Não somente isso, mas os próprios figurinos remetem à década de 50, época frequente em histórias onde personagens sentem profunda angústia em se conformar com a aparente felicidade e mediocridade do American Way of Life imposto.
Contando com ótimas gags visuais e ação, que se equilibram bem com os momentos de diálogos entre os personagens (que podem entediar alguns espectadores abaixo dos sete anos), o filme infelizmente só poderá ser curtido por muitos em DVD. As distribuidoras poderiam ter acreditado mais no potencial do filme, investindo tanto em mais publicidade quanto em cópias dubladas, creio que não se arrependeriam. Baseado em livro de Roald Dahl, com vozes de George Clooney, Meryl Streep, Bill Murray, Jason Schwartzman, Willem Dafoe e Michael Gambon.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Deixe suas impressões.